quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um diálogo.


ANDRÉ diz:
. eu ando pensando bastante na sensação que dá quando você vai num lugar onde pessoas que você conheceu moraram
. ou você mesmo
. eu fico em transe sempre que passo perto da casa onde passei minha infância
lídia diz:
. hm
. sabe, agora que tocou no assunto
. acho que isso pode explicar a minha ânsia indireta de sair de casa ou da cidade
. talvez eu queira sentir esse transe que você sente
. eu sempre morei aqui
ANDRÉ diz:
. bem pensado
. morar sempre no mesmo lugar dá nisso
. mas a sensação geral pra mim é de tristeza em relação a esses lugares
lídia diz:
. mas... isso não deveria ser uma coisa "boa"? Se não, eu não teria o impulso de almejar...
. eu já me imaginei olhando a árvore da frente da minha casa, daqui uns 30 anos
. me lembrando de "quando minha avó era viva"
. seria uma tristeza, mas ao mesmo tempo
. não sei... um sentimento hipotéticamente vivo e interessante
. não sente isso?
ANDRÉ diz:
. sinto sim
. é aquela velha sensação de nostalgia, não é?
[...]
[...]
lídia diz:
. acho que se a nostalgia fosse uma pessoa
. seria daquelas que você ama e odeia ao mesmo tempo
. aquelas bipolares
. que te fazem rir, como fazem chorar
. mas uma pessoa excepcionalmente reservada
. que dizem ser "meio morta"
. mas que te faz sentir vivo ao estar perto dela
. um negócio meio paradoxal, sei lá.
ANDRÉ diz:
. então, você pode interpretar a nostalgia como sendo nós mesmos
. todo o contraste da coisa
lídia diz:
. tem razão
. o nós do espelho... talvez?
ANDRÉ diz:
. hmm
. realmente
. parece ser uma boa visão das coisas
. ou de nós.
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A conversa foi mais ou menos assim, tirando os erros de digitação no msn.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Regurgitofagia - Michel Melamed

Parte I
"Confirmado, eu morri! Estou aqui apenas para esclarecer que não há vida após a morte. A gente morre e fim. Acaba tudo geral. No exato segundo em que se morre, perde-se a consciência e... Portanto não existe alma, reencarnação, inferno nem reino dos céus. A pergunta óbvia então: como é possível, se não existe nada após a morte, que eu, morto, esteja aqui querendo confirmar a inexistência? Simples, eu estou escrevendo este texto antes de morrer. É um misto de insight com presságio. De resto é poder contar com um pouco de sorte e eu estou apostando todas as minhas fichas. Afinal, não havendo nada após a morte, não há o que ser descrito. Apenas esta confirmação, que tenho certeza, de onde eu estiver, uma vez mais assinarei embaixo. Gostaria de aproveitar a oportunidade e agradecer por ter vivido. Um beijo todo especial para o mundo inteiro, e sorte e coragem pra vocês. logo, quero dizer, nunca!"

Parte II
"Confirmado, eu morri! Estou aqui apenas para esclarecer que há vida após a morte. A gente morre e começo. Começa tudo geral. No exato segundo em que se morre, ganha-se a consciência e... Portanto existe alma, reencarnação, inferno e reino dos céus. A pergunta óbvia então: o que é que tem depois da vida? Complicado explicar. Porque eu estou escrevendo este texto antes de morrer. É um misto de insight com presságio. De resto é poder contar com um pouco de sorte e eu estou apostando todas as minhas fichas. Afinal, havendo vida após a morte, farei todo o possível para me manifestar e contar tintim por tintim. Por enquanto, apenas esta confirmação, que tenho certeza, de onde eu estiver, uma vez mais assinarei embaixo. Gostaria de aproveitar a oportunidade e agradecer por ter vivido. Um beijo todo especial para o mundo inteiro, e sorte e coragem pra vocês. logo, quero dizer, ei, você por aqui?!"

Após ler as duas partes, acometeu-me um certo pessimismo característico, que eu chamaria, em outra ocasião, de tendência sádica. Uma certa repulsa ao final alternativo de vida após a morte. Repulsa à esperança de uma explicação mais complicada, que me renderia outras páginas pra ler em breve, morrendo de sono, e tendo que trabalhar no dia seguinte. Mas ah, esperança... esperância, eu diria! Para mim, essa palavra tem a mesma sonoridade de outras como lambança, ou matança. E por que, esperança, não seria derivada de mais um sortudo verbo, vítima do agressivo vilão, Ança, o sufixo popular com um quê de petulante? Seria uma espera, pintada de tola: uma esperança. Enfim, vê-se que minha fé na consciência póstuma está de fato, regurgitando aqui, após repetir esperança tantas vezes.
Então, e você? Qual palavra você mudaria nos textos para seguir sua vida em frente, e morrer em paz? Prefere não ler nada, para ter certeza do fim? Ou... está morrendo?! Oh, um beijo todo especial, e escreva-nos.