Se eu te crio
é por ilusão
se eu te iludo
é por amor
se eu te amo
é por ódio
se eu te odeio
eu te mato
e se eu te mato
é por ciúmes
ciúmes
ciúmes
te como
ciúmes
te bato
ciúmes
te sugo
ciúmes
te cuspo
ciúmes
declaro
ciúmes
apego
ciúmes
te mato
ciúmes
e morro
ciumento
Tudo é ego.
De amantes De mentes
Lucy à mercê da gravidade com os quartzos.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Bem, eu te perdi. (Edna St. Vincent Millay, 1931)
"Bem, te perdi. E te perdi justamente
Da minha própria maneira, e com meu pleno consentir
Diga o que quiseres, reis condenados raramente
Foram para suas mortes mais orgulhosos do que este esteve a ir
Algumas noites de apreensão e quente chorar
Confessarei, mas isso é permitido a mim
O dia secou os meus olhos, não fui feita para ser aprisionada
Enfurnada em uma gaiola, uma asa que seria livre
Se te amado menos tivesse, ou enganado-te furtivamente
Por um verão a mais poderia ter te prendido
Mas ao custo de palavras que me são muitos queridas
E nenhum verão tal como o antes vivido
Se eu sobreviver a esta angústia – e os homens sobrevivem -
Terei apenas o bem para falar de você."
Da minha própria maneira, e com meu pleno consentir
Diga o que quiseres, reis condenados raramente
Foram para suas mortes mais orgulhosos do que este esteve a ir
Algumas noites de apreensão e quente chorar
Confessarei, mas isso é permitido a mim
O dia secou os meus olhos, não fui feita para ser aprisionada
Enfurnada em uma gaiola, uma asa que seria livre
Se te amado menos tivesse, ou enganado-te furtivamente
Por um verão a mais poderia ter te prendido
Mas ao custo de palavras que me são muitos queridas
E nenhum verão tal como o antes vivido
Se eu sobreviver a esta angústia – e os homens sobrevivem -
Terei apenas o bem para falar de você."
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Por cima.
Eles olham
Eles sofrem
Eles cobiçam
Eles machucam
Eles tremem
Eles mentem
Eles somem
Eles soam
Eles exageram
Eles posam
E como posam
Eles confundem
Eles bebem
Eles esguicham
Eles pensam
Eles distraem
Eles dormem
Eles inflam-se
Eles seduzem
Eles enojam
Alguns amam
Eles masturbam
Eles irritam
Eles escapam
Eles perdem
Eles pouco se fodem
E fodem
Eles enjoam
Eles fixam-se
Eles gostam
Eles gozam
Eles abusam
Eles emburrecem
Desapegam-se
E eles dizem: É o par de seios mais belo da minha vida
Ela ri.
Eles sofrem
Eles cobiçam
Eles machucam
Eles tremem
Eles mentem
Eles somem
Eles soam
Eles exageram
Eles posam
E como posam
Eles confundem
Eles bebem
Eles esguicham
Eles pensam
Eles distraem
Eles dormem
Eles inflam-se
Eles seduzem
Eles enojam
Alguns amam
Eles masturbam
Eles irritam
Eles escapam
Eles perdem
Eles pouco se fodem
E fodem
Eles enjoam
Eles fixam-se
Eles gostam
Eles gozam
Eles abusam
Eles emburrecem
Desapegam-se
E eles dizem: É o par de seios mais belo da minha vida
Ela ri.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Desassossego.
Antes eu pedia
Calma e paciência
Para ler textos
Hoje peço sufoco
E desconforto para
Conseguir produzí-los.
Calma e paciência
Para ler textos
Hoje peço sufoco
E desconforto para
Conseguir produzí-los.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
O Impossível - Maria Martins. (escultura)

Eu grito no vácuo da tua boca, cuspo tua saliva, engulo teu catarro, de longe. Só vontade, crua vontade, regurgita nossas formas. Formas tortas, por assim iguais, e impossíveis em seu encaixe. Não há encaixe. Encaixote-me longe de você, afasta-me dos teus seios, que os meus, já arranco, quisera sem sentido, fodesse. Capte-me tanto à angustia, quanto a um puro deleite de bronze em estátua. É impossível, nós, de dois em um. Impossível e neoconcreto, de que tão abstrato seja.
- Texto feito especificamente para a obra "O Impossível" (Maria Martins, 1940), de uma expressividade inexplicável em mim.
domingo, 18 de julho de 2010
O traje, a ilha, e a guerra.

Acabo de descobrir uma relação direta entre a 2ª Guerra Mundial e a Revolução do Biquini (início, 1946), que preciso relatar aqui.
Começando pela raíz do nome, Bikini. Por que "Bikini"? Essa palavra veio de uma ilha chamada Bikini, no arquipélago das Ilhas Marshall, pertencente aos EUA. Mas o que diabos isso tem a ver com uma peça de roupa? Tudo, considerando que na mesma época em que o engenheiro mecânico francês, Louis Réard, estava herdando da mamãe, uma indústria de lingerie, e se tornando o estilista que inventaria tal traje de banho, a ilha de Bikini estava sendo bombardeada pelos americanos, e aparecendo muito na mídia. Porém, essa mídia mostrava o bombardeio, como uma nobre colaboração dos bikinianos para o avanço da humanidade, ou pelo menos, essa foi a desculpa que os americanos deram para usar a ilha (antes, um paraíso tropical), como alvo de testes atômicos na Guerra Fria. Ao contrário do que o Wikipédia diz, a ilha não foi desabitada. Ainda hoje há comunidades de pessoas morando lá, com sérios problemas de saúde devidos à sequelas da radioatividade, ainda presente em alimentos e etc.
Já voltando ao bikini de praia, o genial francês Sr. Réard, só resolveu pegar a palavra que estava na boca do povo, pela a polêmica do bombardeio, e nomear a sua mais nova invenção, BIKINI! Por isso dizem que a origem da palavra é francesa, mas, sabendo da história toda, a origem é Bikiniana, o que soaria redundante, enfim. Réard teve de apelar para a linda dançarina de cabaré, Micheline Bernardini, para exibir seu novo modelo pela primeira vez. (vide foto)
Outra curiosidade interessante sobre a revolução do bikini, foi a intenção que a música "Biquini de bolinha amarelinho" foi feita. Segundo seu compositor original, Brian Hyland, ele havia feito a música, baseada no episódio em que sua filha de 10 anos vestiu um biquini pela primeira vez, e não quis sair de dentro do armário, porque estava com vergonha. A intenção foi totalmente inocente, mas devido ao clima de feminismo ascendente na década de 60, as pessoas imaginaram a "Ana Maria", (que não tem nome na versão original) como uma loira picante e hollywoodiana, que o brasileiro fez questão de vulgarizar mais ainda. Aliás, para infelicidade dos nacionalistas brasileiros que acreditam ser o Rio de Janeiro, a Terra do Biquini, a primeira mulher a usar essa peça no Brasil, foi uma turista Alemã, chamada Miriam Etz.
Assim, o biquini chegou feito uma bomba (literalmente) na década de 40. A partir daí, a moda pegou e não largou mais.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
o lírico, onírico.
Ontem eu finalmente tive um sonho. Não com você: eu sonhei você.
Sonhei a estrada. E eu olhando o mapa, este, cujas rotas me lembravam ligações cerebrais, em tom roxo, em tom sépia, em Tom Zé no rádio do carro. A mala me trouxera ao posto. Para mim, uma aventura. Para você, uma loucura. Varrida. Doente. Incógnita. Assim me chamei, e fui te chamar, para ver a boa nova.
Eu sonhei você. Es te vi na tua porta. Uma música toda, parado em minha frente, me olhando assim assado, e assim assando minhas vontades sobre você. Imagens coloridas nossas, se mesclando com o seu rosto estático no portão, sem piscar. Eu não soube para qual quis olhar, mas eu vi!! Ah vi, seus olhos líricos: me chamando colorido, me odiando azul noturno, me conhecendo amarelo dia, se enjoando acinzentado chuva, me amando em preto e branco. Eu e minhas malas perguntamos, "será lírico, ou apenas... onírico?"
Acordei, engomei a bagagem, e fui embora.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Minha dessabença
Ao meu sensoNão o pó
Ou o átomo
Não o câncer
Nem o genoma
Não o verde
Ou a organela
Não o micro
Nem a energia
Não o macro
Ou o cosmo
Não a extinção
Nem a explosão
Meu problema
São as datas comemorativas
Não a fome
Nem a seca
Não a poesia
Ou o trema
Não a cultura
Nem o ufanismo
Não o lado certo
Ou o Calabar
Não a censura
Nem o Parangolé
Não o véu
Ou a humilhação
Não me importo
Nem me concentro
Ou me estudo
Se tu não estás como outrora
Meu problema agora
São as datas comemorativas
Comemorando números
Em memórias de mim
Presenças
Em ausência de ti
E ausências
Em presença de outros
As datas comemorativas
Comemoram nossa falta
Desse ano
Em fartura de
Anos passados
O problema do mundo
São as datas comemorativas
Ademais, meu problema é amor
E amor é a dessabença do meu mundo.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Pipocando.

Ridículo. Não seja ridículo para tentar contar quantas vezes essa palavra dará as letras nesse texto, ridículo. Pois assim, sinto o tema mais conciso. (ridícula justificativa)
"Ao menos duas vezes ao dia, até o mais digno dos seres humanos, banca o ridículo."
Você deve ter pensado: Nossa, ela deve ser uma pessoa culta para ter lido essa frase em algum livro interessante. Ridícula conclusão. Li esta, na sinopse de um filme clássico chamado "Ninotchka", com a Greta Garbo, que até hoje não assisti. Ridícula eu. A frase foi pronunciada pelo roteirista, Billy Wilder, e eu pensei bastante nela.
De fato, tudo é muito ridículo. Com certeza, a pessoa mais genial que você conheceu, já foi muito ridícula, para ter chegado a esse ponto de reconhecimento. Exemplo? Pense em qualquer indivíduo considerado Gênio da Humanidade, daqueles que todos sabem o nome, e dizem "nossa, ele é foda", sem saber no que a teoria (ou seja lá a merda que este tenha feito ou dito), consiste. Albert Einstein? Serve, exemplo perfeito.
Tente imaginar o quanto esse cara não devia ser feio, fedido, chato, e anti-social na adolescência, se todos já somos um pouco assim nessa fase. É evidente que, ele foi ridicularizado inúmeras vezes pelos coleguinhas, e continuou sendo depois de adulto, pelas suas teorias mal compreendidas, e é provável que, depois das cópulas também, pelas duas esposas (conclusão à parte). Ele também falou, concordou, e discordou, erroneamente, sendo de fato ridículo, não apenas segundo a ignorância do público (ridículo) que "não compreendia o homem a frente de seu tempo."
Pra você ser uma pessoa bacana, ou fazer coisas bacanas, você precisará ser, ou passar por uma situação ridícula, ao menos uma vez na vida. O curioso é, que depois do indivíduo ficar reconhecido benéficamente, todas as coisas ridículas que ele fazia, se tornam motivo de admiração, e todos querem ser ridículos como ele era, para se sentirem indiretamente, futuros gênios. Ridículo, não?
Por que não dá para fugir dessa onda de ridicularidade? Talvez, por ela ter vários pontos de vista. Fugindo de um, você cai em outro. Supostamente, é fácil concordar com Billy. Veja.
Você quer chamar atenção, o que faz? O ridículo. E quando está apaixonado? Você é ridículo. E se tenta fugir da paixão? Mais ainda. Se inventa moda esquisita, ridículo. E se não inventa nada, completamente ridículo. Se deixa de ir às festas para ler Bukowski, ridículo. E se vai, e não lê, ridículo também.
Você quis ser o primeiro da classe: Ridículo. Você é o mais burro da classe: Ridículo. Quer inovar: Ridículo. Quer continuar na mesma merda: Ridículo. Se acha inteligente: Ridículo. Se acha inferior: Absurdamente ridículo. Sempre otimista? Tolamente ridículo. Pessimista? Pateticamente ridículo. Se declarou: Ridículo. Guardou para si: Mais ridículo. Você é odiado? Ridículo. Você é idolatrado? Descaradamente ridículo. Dançou errado: Ridículo. Dançou como todo mundo: Medíocremente ridículo.
Acha tudo muito perfeito? Ridículo.
Mas acima de tudo, se acha tudo muito ridículo:
Ridiculamente, ridículo... e morto.
domingo, 25 de abril de 2010
Sorriso Pontual.
Assisto TV.
Eu estou num campo de concentração, eu me sinto lá. A vontade me preocupa, e principalmente a falta dela. Tudo é sexo, tudo é livros, tudo é vontade.
Ouço música.
Os planos me aparecem, como o acordar de um pesadelo. 5 segundos depois, percebo que apenas sonhei ter acordado... gritando 'tech support'!
Me arrumo.
Talvez seja mais vivo, talvez vitalício, postumamente!
Leio o artigo.
Quem dirá que são esquizofrénicos? Quem dirá, não admitirem que são índios, quando terá sido óbvio?
Prego a peça.
Todos sabem que é um teatro.
Entretanto, se a peça não termina, qual fora a encenação?
Deito.
E o que realmente me preocupa é a vontade. Vontade de não ter perdido-a, e de descobrir: qual a minha vontade?
Agora.
O cotidiano me sorri um sorriso pontual.
Sim, ele é realmente muito simples, fútil, e irreflexível, para os intelectuais de ironias à parte.
Mas eu? Vou assistir TV.
domingo, 11 de abril de 2010
Culto Curto

Quero ser do interior
Chega desses livros descritivos
Você gosta enquanto
Não é protagonista
Queria ser caipira
Não esses homens de bigodes
Em preto e branco
Aceitem sua época
Queria ser caipira
Os poemas sobre o vaso
Não resumem a cena
Quero a cena seca
Queria ser caipira
Culto nada
Curto tempo pra isso
Curto saco pra eles
Queria ser caipira
Pois no interior
Todo culto
É curto
e vice-versa
domingo, 4 de abril de 2010
Peripécias de 4ª série.

03:31 da manhã! Veio-me à cabeça uma lembrança muito clara. O evento ocorreu 9 anos atrás, na minha sala da 4ª série B, e desde então, eu nunca mais havia me recordado disso.
Estávamos numa aula qualquer, quando a diretora (a chamada "Burdogui") entra e chama pela Vanessa, uma garota que sentava no fundo da sala, meio rejeitada popularmente por causa dos cabelos esvoaçados de tom cinza. Era feia.
O motivo da chamada foi o seguinte:
Cerca de uma semana antes disso, essa garota estava mudando seu quadro de rejeitada, e ficando popular, pelo fato de estar pagando lanche para a maior parte da sala no recreio. Eu ouvia os cochichos das outras crianças, dizendo que haviam ganhado salgadinhos da Elma Chips, com figurinha do pokemon dentro, balas, dadinhos, e até risoles e cochinhas de frango, especialmente a Juliana, uma loira Pop. Eu não estava inclusa na lista de presenteados, não sei porquê, desconsiderando o fato de que minha popularidade era tão "boa" quanto a da própria Vanessa, salvo os cabelos e o altruísmo momentâneo dela.
Até aí, eu mal tinha me tocado, ou parado para pensar na situação financeira da dita cuja, e muito menos na razão de tudo isso: estava ocupada demais na minha carteira, pensando no episódio de El Hazard que eu assistiria a tarde.
Porém, nesse dia em que a diretora chamou-a na frente de todos, esclareceu-se o caso! A Vanessa levantou da carteira, cabisbaixa, e foi até a porta, onde estavam a diretora, a professora Ione, e uma mulher magrela, que eu pensava ser coadjuvante inútil da cena.
Essa mulher magrela era mãe dela, e lembro da sala inteira ter visto e ouvido ela falar em voz alta - "Por que fez isso Vanessa?" - quando a diretora interrompeu e nos mandou não aceitar mais presentes dela, pois eram comprados com dinheiro roubado, adivinhe de quem; Da própria mãe. Quase todo o salário da coitada.
Isso foi dito em público, com todos presentes: mãe, filha, e idiotas figurantes como eu. No dia seguinte, eu já havia esquecido, preocupada com meu novo mangá. Mas ainda sim, ouvia cochichos em todo lugar, e só hoje, fui refletir em como isso foi dolorido e dramático!
Tudo culpa do filme "Os Incompreendidos", de Truffaut, que acabo de assistir. É tolice ver essas coisas antes de dormir...
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Dancing with myself

Não tenho isso
Eu tenho é gosto
Aquilo também não
E eu gosto
Nunca tive
Mas sei que gostarei
Uma vez mais, gostosa
Não sei de nada
Sei meu gosto
Não tenho nada
Eu tenho gosto
Eu só tenho gosto
Eu tenho muitos gostos
Todos os gostos
Gosto de todos
Eu tenho tudo
Do mal gosto
Gosto bom
Prefiro dançar a conversar com você
Não sei de nada
Mas gosto, eu tenho.
sexta-feira, 19 de março de 2010
Haja graça.

O bizarro, a comédia, e o drama, são cada dia mais, a mesma coisa para mim. O chocante dá lugar ao cômico que, na verdade, oculta o patético das pessoas que sofrem.
Assim, desfrutemos nossa cotidiana comédia.
Rosa Púrpura do Cairo - Woody Allen

Assistir a um filme, é como perder sua identidade por alguns minutos, para viver uma história desconhecida até então, ser outra pessoa, apaixonar-se, ou odiar alguém. Em determinadas ocasiões, inconscientemente, temos a sensação de que o próprio filme nos assiste, pois alcançam desejos, traumas, ilusões que temos, e sempre com um personagem do qual mais nos identificamos. Woody Allen sabe fazer isso comigo. Os filmes dele me assistem, da mesma forma que os filmes hollywoodianos da década de 30, assistiam Cecília (Mia Farrow), a protagonista de A Rosa Púrpura do Cairo.
Com uma explosão de metalinguagem tratando-se de cinema, o filme conta a história de uma garçonete pobre, ingênua e gentil, vivendo em plena a grande depressão americana. Tendo um marido que a traía e machucava, e um trabalho medíocre, ela encontrava conforto no cinema, o qual a fazia sonhar com todo aquele glamour que este vendia. Diante do desemprego, tensão econômica e política desse intervalo entre guerras, hollywoody promovia como nunca o american-way-of-life, o sonho americano de luxo e liberdade, com os sensuais cigarros, charutos, a Coca-Cola, e os Ford-T's passeando pela cidade. Cecília é o esteriótipo de cidadão da época, que ia ao cinema para penetrar na tela, viver o amor que sempre quis, e esquecer sua vida por alguns instantes. Porém, a pitada de comédia irônica de Woody Allen entra em cena, quando Cecília vai ver o novo filme em cartaz, "Rosa Púrpura do Cairo", pela 4ª vez, e um dos personagens, Tom Baxter, (Jeff Daniels), sai da tela e a convida para fugir com ele. A partir daí, seguem-se cenas impagáveis, de Cecília mostrando o mundo real ao galã.
Uma delas, se passa num restaurante caríssimo, o qual, depois de um jantar romântico, ele paga a conta com dinheiro falso, dizendo, "Oras, sempre aceitaram esse dinheiro no filme", e assim, eles saem correndo sem pagar, entram num carro alheiro, e Tom diz novamente, "Ele não está andando! Os carros sempre andam no filme." E então, com um jeito meigo, inocente e apaixonado, Tom conquista Cecília; isto é, até o ator verdadeiro aparecer, querendo levar seu personagem de volta às telas, e alegando gostar de Cecília também. Assim, a protagonista solitária, se torna a mocinha do filme, docemente encantadora e desejada por dois homens perfeitos (um do mundo real, e outro fictício).
Allen consegue misturar fantasia, romance, comédia, ironia, e crítica ácida de um jeito cativante, e ainda fechar com um final totalmente realista, contrastando com todo o decorrer do filme, para quem esperava algo "água com açúcar", é simplesmente um tapa na cara.
Rosa Púrpura do Cairo, com certeza é merecedor dos vários prêmios que ganhou, como: Oscar de melhor roteiro original (1986), Cannes (1985), BAFTA(1985), dentre outros, embora Woody não dê a mínima para isto. Na entrevista que deu para a Folha de S.Paulo em 2006, ele falou o seguinte sobre premiações:
"Não vou a esses eventos porque desgosto deles. Acontecem na Califórnia, eu moro em Nova York, tenho que pegar avião, viajar milhares de quilômetros, atrapalhar minha rotina, uma chatice, prefiro ignorar. Artisticamente não significam nada."
Para encerrar, colocarei aqui uma das frases que me fazem amar este indivíduo: "As pessoas sempre me enganam em duas coisas sobre mim: pensam que sou intelectual (porque uso óculos), e que sou um artista (porque meus filmes perdem dinheiro)." - Woody Allen.
fikdik
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Um diálogo.

ANDRÉ diz:
. eu ando pensando bastante na sensação que dá quando você vai num lugar onde pessoas que você conheceu moraram
. ou você mesmo
. eu fico em transe sempre que passo perto da casa onde passei minha infância
lídia diz:
. hm
. sabe, agora que tocou no assunto
. acho que isso pode explicar a minha ânsia indireta de sair de casa ou da cidade
. talvez eu queira sentir esse transe que você sente
. eu sempre morei aqui
ANDRÉ diz:
. bem pensado
. morar sempre no mesmo lugar dá nisso
. mas a sensação geral pra mim é de tristeza em relação a esses lugares
lídia diz:
. mas... isso não deveria ser uma coisa "boa"? Se não, eu não teria o impulso de almejar, como humana...
. não entendo
. eu já me imaginei olhando a árvore da frente da minha casa, daqui uns 30 anos
. me lembrando de "quando minha avó era viva"
. seria uma tristeza, mas ao mesmo tempo
. não sei... um sentimento hipotéticamente vivo e interessante
. não sente isso?
ANDRÉ diz:
. sinto sim
. é aquela velha sensação de nostalgia
[...]
[...]
lídia diz:
. acho que se a nostalgia fosse uma pessoa
. seria daquelas que você ama e odeia ao mesmo tempo
. aquelas bipolares
. que te fazem rir, como fazem chorar
. mas uma pessoa excepcionalmente reservada
. que dizem ser "meio morta"
. mas que te faz sentir vivo ao estar perto dela
. um negócio meio paradoxal, sei lá.
ANDRÉ diz:
. então, você pode interpretar a nostalgia como sendo nós mesmos
. todo o contraste da coisa
lídia diz:
. tem razão
. o nós do espelho... talvez?
ANDRÉ diz:
. hmm
. realmente
. parece ser uma boa visão das coisas
. ou de nós.
_________________________
A conversa foi mais ou menos assim, tirando os erros de digitação no msn.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Regurgitofagia - Michel Melamed
Aqui está um tipo de texto que arrancou-me palmas alvoroçadas na madrugada! Aquele que pode vestir qualquer tipo de máscara, ou visão, que ainda sim, será autêntico.
O texto camaleão:
Parte I
"Confirmado, eu morri! Estou aqui apenas para esclarecer que não há vida após a morte. A gente morre e fim. Acaba tudo geral. No exato segundo em que se morre, perde-se a consciência e... Portanto não existe alma, reencarnação, inferno nem reino dos céus. A pergunta óbvia então: como é possível, se não existe nada após a morte, que eu, morto, esteja aqui querendo confirmar a inexistência? Simples, eu estou escrevendo este texto antes de morrer. É um misto de insight com presságio. De resto é poder contar com um pouco de sorte e eu estou apostando todas as minhas fichas. Afinal, não havendo nada após a morte, não há o que ser descrito. Apenas esta confirmação, que tenho certeza, de onde eu estiver, uma vez mais assinarei embaixo. Gostaria de aproveitar a oportunidade e agradecer por ter vivido. Um beijo todo especial para o mundo inteiro, e sorte e coragem pra vocês. Té logo, quero dizer, té nunca!"
Parte II
"Confirmado, eu morri! Estou aqui apenas para esclarecer que há vida após a morte. A gente morre e começo. Começa tudo geral. No exato segundo em que se morre, ganha-se a consciência e... Portanto existe alma, reencarnação, inferno e reino dos céus. A pergunta óbvia então: o que é que tem depois da vida? Complicado explicar. Porque eu estou escrevendo este texto antes de morrer. É um misto de insight com presságio. De resto é poder contar com um pouco de sorte e eu estou apostando todas as minhas fichas. Afinal, havendo vida após a morte, farei todo o possível para me manifestar e contar tintim por tintim. Por enquanto, apenas esta confirmação, que tenho certeza, de onde eu estiver, uma vez mais assinarei embaixo. Gostaria de aproveitar a oportunidade e agradecer por ter vivido. Um beijo todo especial para o mundo inteiro, e sorte e coragem pra vocês. Té logo, quero dizer, ei, você por aqui?!"
Após ler as duas partes, acometeu-me um certo pessimismo característico, que eu chamaria, em outra ocasião, de tendência sádica. Uma certa repulsa ao final alternativo de vida após a morte. Repulsa à esperança de uma explicação mais complicada, que me renderia outras páginas pra ler em breve, morrendo de sono, e tendo que trabalhar no dia seguinte. Mas ah, esperança... esperância, eu diria! Para mim, essa palavra tem a mesma sonoridade de outras como lambança, ou matança. E por que, esperança, não seria derivada de mais um sortudo verbo, vítima do agressivo vilão, Ança, o sufixo popular com um quê de petulante? Seria uma espera, pintada de tola: uma esperança. Enfim, vê-se que minha fé na consciência póstuma está de fato, regurgitando aqui, após repetir esperança tantas vezes.
Então, e você? Qual palavra você mudaria nos textos para seguir sua vida em frente, e morrer em paz? Prefere não ler nada, para ter certeza do fim? Ou... está morrendo?! Oh, um beijo todo especial, e escreva-nos.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Vê se te orienta!

Hé 'Al Capone
Vê se te emenda
Já sabem do teu futuro, nego
No imposto de renda
Assim dessa maneira, nego
Chicago não te aguenta
Eu sou astrólogo
Vocês precisam acreditar em mim
Eu conheço a história
Do princípio ao fim.'
Já decorei o fim do filme
Já sei onde as balas vão parar
Também que os Goodfellas
Só acompanham o fluxo
E mesmo assim
Minha curiosidade
Não para de me queixar
Até onde você está disposto a ir, agora?
Até onde?
Eu estou num eterno filme de máfia
Não preciso de final feliz
Vê se me emenda
Vê se não me aguenta
Não me aguenta
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
F. T. Marinetti

"Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas idéias pelas quais se morre, e o desprezo pela mulher."
Que tipo de alucinógeno esse indivíduo usava? O Tarantino podia ter se lembrado dele no Bastardos... ah, se podia!
Entrelinhas, paixão-psicose.
- Texto censurado para menores de 12 anos.
Querida, fui comprar batatas! Hoje é um jantar especial. Estou preparando-as com molho de tomate e frango, você disse que era seu prato predileto da primeira vez. Onde você estava até agora? Estive te esperando o dia todo! Comprei esse terno novo, gel para cabelo, e um barbeador decente (sei que não gosta da minha barba). Onde você vai? Ajude-me a colocar a assadeira no forno, eu estou fraco. Faltou pimenta? Eu sou um frouxo, perdoe-me. Tome essa venda. Assim não verás meu rosto envergonhado. Não pode ir agora, comeremos juntos. Não quero fazer como antes, vamos devorar um ao outro essa noite, um ato de dois. Prestarei atenção e elogiarei seus mamilos, eu te digo, não me deixe. Não tenho sua mão para colocar a pitada certa de sal, ajude-me, não tenho mais sua mão para segurar há anos, e hoje, ela estará onde eu pedir. Não, você não vai! Engoli a chave de casa, terá de me abrir. Não, você não vai! Quantas noites não passei, te vendo da janela no apartamento dele, na rua de cima? Eu sempre soube. Você ia aos domingos, isto é, quando a "assistência" na enfermaria não a ocupava. Mas hoje, ao menos hoje, você será minha, sem receios, sem pudores, só minha, irá onde eu pedir! Minha sim, vadia! Pois seja essa vadia comigo também! O que quer com essa faca? Ah querida, esse corte não me fere em nada, comparado aos açoites que levei esses anos. Eu sempre me regenero, só pra voltar a te querer, e te machuco em troca, com o que mais tens nojo: eu, em você. Sim, mas é claro que eu já sabia dessa sua repugnância. Largue essa arma, não será uma bala que nos separará, você me pertence. Em todos os seus porres, nesses anos todos, eu estive lá. Em todas as suas "horas extras noturnas" do trabalho, eu estive lá. Em todas as suas trepadas, em todos os seus banhos, eu estive...
morrendo. Morrendo só pra te ver. Só pra te ter aos meus olhos. Então atire mais uma bala, esta na cabeça. E como se fosse diferente, assim eu termino: me arrastando, segundos antes da morte, pra ficar perto de você. É como eu disse, não adianta não. Agora, o sangue que sai de suas entranhas, finalmente, se mistura com o meu. Perdoe-me querida, eu treinei para ser um bom amante, mas esqueci que era apenas, o marido.
- Sim. Estou um caos revendo filmes do Almodóvar. Ps. Este foi em nome dos obcecados personagens, Sancho, de 'Carne Trêmula', e Benigno, de 'Fale com Ela'. Um tipo de mente fácil de se encontrar (ou de se transformar), mas difícil de compreender.
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