quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um diálogo.


ANDRÉ diz:
. eu ando pensando bastante na sensação que dá quando você vai num lugar onde pessoas que você conheceu moraram
. ou você mesmo
. eu fico em transe sempre que passo perto da casa onde passei minha infância
lídia diz:
. hm
. sabe, agora que tocou no assunto
. acho que isso pode explicar a minha ânsia indireta de sair de casa ou da cidade
. talvez eu queira sentir esse transe que você sente
. eu sempre morei aqui
ANDRÉ diz:
. bem pensado
. morar sempre no mesmo lugar dá nisso
. mas a sensação geral pra mim é de tristeza em relação a esses lugares
lídia diz:
. mas... isso não deveria ser uma coisa "boa"? Se não, eu não teria o impulso de almejar...
. eu já me imaginei olhando a árvore da frente da minha casa, daqui uns 30 anos
. me lembrando de "quando minha avó era viva"
. seria uma tristeza, mas ao mesmo tempo
. não sei... um sentimento hipotéticamente vivo e interessante
. não sente isso?
ANDRÉ diz:
. sinto sim
. é aquela velha sensação de nostalgia, não é?
[...]
[...]
lídia diz:
. acho que se a nostalgia fosse uma pessoa
. seria daquelas que você ama e odeia ao mesmo tempo
. aquelas bipolares
. que te fazem rir, como fazem chorar
. mas uma pessoa excepcionalmente reservada
. que dizem ser "meio morta"
. mas que te faz sentir vivo ao estar perto dela
. um negócio meio paradoxal, sei lá.
ANDRÉ diz:
. então, você pode interpretar a nostalgia como sendo nós mesmos
. todo o contraste da coisa
lídia diz:
. tem razão
. o nós do espelho... talvez?
ANDRÉ diz:
. hmm
. realmente
. parece ser uma boa visão das coisas
. ou de nós.
_________________________
A conversa foi mais ou menos assim, tirando os erros de digitação no msn.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Regurgitofagia - Michel Melamed

Parte I
"Confirmado, eu morri! Estou aqui apenas para esclarecer que não há vida após a morte. A gente morre e fim. Acaba tudo geral. No exato segundo em que se morre, perde-se a consciência e... Portanto não existe alma, reencarnação, inferno nem reino dos céus. A pergunta óbvia então: como é possível, se não existe nada após a morte, que eu, morto, esteja aqui querendo confirmar a inexistência? Simples, eu estou escrevendo este texto antes de morrer. É um misto de insight com presságio. De resto é poder contar com um pouco de sorte e eu estou apostando todas as minhas fichas. Afinal, não havendo nada após a morte, não há o que ser descrito. Apenas esta confirmação, que tenho certeza, de onde eu estiver, uma vez mais assinarei embaixo. Gostaria de aproveitar a oportunidade e agradecer por ter vivido. Um beijo todo especial para o mundo inteiro, e sorte e coragem pra vocês. logo, quero dizer, nunca!"

Parte II
"Confirmado, eu morri! Estou aqui apenas para esclarecer que há vida após a morte. A gente morre e começo. Começa tudo geral. No exato segundo em que se morre, ganha-se a consciência e... Portanto existe alma, reencarnação, inferno e reino dos céus. A pergunta óbvia então: o que é que tem depois da vida? Complicado explicar. Porque eu estou escrevendo este texto antes de morrer. É um misto de insight com presságio. De resto é poder contar com um pouco de sorte e eu estou apostando todas as minhas fichas. Afinal, havendo vida após a morte, farei todo o possível para me manifestar e contar tintim por tintim. Por enquanto, apenas esta confirmação, que tenho certeza, de onde eu estiver, uma vez mais assinarei embaixo. Gostaria de aproveitar a oportunidade e agradecer por ter vivido. Um beijo todo especial para o mundo inteiro, e sorte e coragem pra vocês. logo, quero dizer, ei, você por aqui?!"

Após ler as duas partes, acometeu-me um certo pessimismo característico, que eu chamaria, em outra ocasião, de tendência sádica. Uma certa repulsa ao final alternativo de vida após a morte. Repulsa à esperança de uma explicação mais complicada, que me renderia outras páginas pra ler em breve, morrendo de sono, e tendo que trabalhar no dia seguinte. Mas ah, esperança... esperância, eu diria! Para mim, essa palavra tem a mesma sonoridade de outras como lambança, ou matança. E por que, esperança, não seria derivada de mais um sortudo verbo, vítima do agressivo vilão, Ança, o sufixo popular com um quê de petulante? Seria uma espera, pintada de tola: uma esperança. Enfim, vê-se que minha fé na consciência póstuma está de fato, regurgitando aqui, após repetir esperança tantas vezes.
Então, e você? Qual palavra você mudaria nos textos para seguir sua vida em frente, e morrer em paz? Prefere não ler nada, para ter certeza do fim? Ou... está morrendo?! Oh, um beijo todo especial, e escreva-nos.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Entrelinhas, paixão-psicose.

Querida, fui comprar batatas! Hoje é um jantar especial. Estou preparando-as com molho de tomate e frango, você disse que era seu prato predileto da primeira vez. Onde você estava até agora? Estive te esperando o dia todo! Comprei esse terno novo, gel para cabelo, e um barbeador decente (sei que não gosta da minha barba). Onde você vai? Ajude-me a colocar a assadeira no forno, eu estou fraco. Faltou pimenta? Eu sou um frouxo, perdoe-me. Tome essa venda. Assim não verás meu rosto envergonhado. Não pode ir agora, comeremos juntos. Não quero fazer como antes, vamos devorar um ao outro essa noite, um ato de dois. Prestarei atenção e elogiarei seus mamilos, eu te digo, não me deixe. Não tenho sua mão para colocar a pitada certa de sal, ajude-me, não tenho mais sua mão para segurar há anos, e hoje, ela estará onde eu pedir. Não, você não vai! Engoli a chave de casa, terá de me abrir. Não, você não vai! Quantas noites não passei, te vendo da janela no apartamento dele, na rua de cima? Eu sempre soube. Você ia aos domingos, isto é, quando a "assistência" na enfermaria não a ocupava. Mas hoje, ao menos hoje, você será minha, sem receios, sem pudores, só minha, irá onde eu pedir! Minha sim, vadia! Pois seja essa vadia comigo também! O que quer com essa faca? Ah querida, esse corte não me fere em nada, comparado aos açoites que levei esses anos. Eu sempre me regenero, só pra voltar a te querer, e te machuco em troca, com o que mais tens nojo: eu, em você. Sim, mas é claro que eu já sabia dessa sua repugnância. Largue essa arma, não será uma bala que nos separará, você me pertence. Em todos os seus porres, nesses anos todos, eu estive lá. Em todas as suas "horas extras noturnas" do trabalho, eu estive lá. Em todas as suas trepadas, em todos os seus banhos, eu estive...

morrendo. Morrendo só pra te ver. Só pra te ter aos meus olhos. Então atire mais uma bala, esta na cabeça. E como se fosse diferente, assim eu termino: me arrastando, segundos antes da morte, pra ficar perto de você. É como eu disse, não adianta não. Agora, o sangue que sai de suas entranhas, finalmente, se mistura com o meu. Perdoe-me querida, eu treinei para ser um bom amante, mas esqueci que era apenas, o marido.

- Em nome dos obcecados personagens, Sancho, de 'Carne Trêmula', e Benigno, de 'Fale com Ela'. Um tipo de mente fácil de se encontrar (ou de se transformar), mas difícil de compreender.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Palpitação final


Esse ano, a virada será memorável.
Alguém atire-nos facas
Que chova, muito sapo
Que mudem-se os ciganos
A virada será memorável
Sem horóscopos do dia D
Queimem as tabelinhas
Encham camisinhas
Sem gulodices
Mas sem luto
Não há rituais nem incensos
Virada virá
De cabeça pra baixo
As idéias decapitadas
De antigos anos
Anjos não sussurrem
O que não se ouve mais
Gritem todos
Amem, soltos
Atiro minhas preces, chega.

A virada virá
Como um tiro
Brusco ininterrupto

A virada virá
Como um cuspe ácido
Um púlpito.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Chaleira de casa.

Era tarde da noite quando me ligou.
Eu ainda não havia dormido às 3h AM com o mp3 tocando Elliott Smith, mas já teria adormecido há 3 anos atrás, tua voz em minha cabeça. Há tempos não nos falávamos, nem lembrávamos... - Não. Lembrar, creio que lembrávamos; bem como aquelas embalagens de sonho de valsa guardadas no fundo da caixinha de sapato, decorada pra lembranças.
Eu tentei, aos poucos ir refazendo seus traços após o 'alô', e em mais 4 palavras, você parecia estar ao meu lado. Esculpi as lembranças daqueles dias, enquanto respondia monossílabos ao telefone, mas não consegui entender metade do que deu errado: eu não sei do quê eu posso te salvar.
Te convidei para vir até minha casa, e em 30 minutos, você estava a minha porta. Percebi pela imagem do olho mágico, que nunca havia te conhecido de verdade, nem você a mim, mas era a minha campainha que estava a tocar. Abri a porta, e me dei conta de que a pessoa que você era antes, se transformou (ou apenas se mostrou) em alguém para quem eu não me importaria em colocar a chaleira no fogão.
Não conversamos muito, como sempre, poucas palavras, poucas expressões, muitos olhares perdidos se encontrando a todo segundo. E eu me senti lá, contigo.
Dei o endereço da casa, a qual eu me mudaria hoje, e de manhã, achei o papel amassado-culpado na calçada, assim como o cartão de 3 anos atrás.

Eu não sei do quê eu posso te salvar.
Eu ainda não sei do quê eu posso te salvar.
Mas a pessoa que eu conheci ontem, é alguém para quem eu não me importo em colocar a chaleira no fogão.

sábado, 3 de outubro de 2009

Traços à palhaço.

Contaram-me essa história recentemente:

"Certa vez, numa cidadezinha do interior apareceu um circo, e entre seus artistas havia um palhaço com o poder de divertir, sem medida, todas as pessoas da platéia e o riso era tão bom, tão profundo e natural que se tornou terapêutico. Todos os que padeciam de tristezas agudas ou crônicas eram indicados pelo médico do lugar para que assistissem ao tal artista que possuía o dom de eliminar angústias. Também era um conselheiro para as crianças e jovens que o procuravam.

Um dia porém um morador desconhecido, tomado de profunda depressão, procurou o doutor. O médico então, sem relutar, indicou o circo como o lugar de cura de todos os males daquela natureza. O homem nada disse, levantou-se, caminhou em direção à porta e quando já estava saindo, virou-se, olhou o médico nos olhos e sentenciou: “não posso procurar o circo... eu sou o palhaço”.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Indentidade

Não trato de explicar-me

Se ao ponto final

Já estarei metamorfoseada.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

"As coisas"


"As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido.

As coisas não têm paz."
(Arnaldo Antunes)

desenho amador mas quebra um galho para o post.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Way of wane.


Essa é de povoamento
Acostamento
Clima Branco
Origem à criação

Laissez faire, laissez passer, caiu
A chave foi Key-nesiana
E Marshall deu esmola
Para voltar ao topo

Hoje, a própria União
Tenta superar
Quase em vão
O que no começo
Era questão de colonização
Ironia, não ?

Mas o caminho
já se perde outra vez.
De quem é o próximo way of life?



sexta-feira, 24 de julho de 2009

Auto-suficiencia:



Kátia B - Só deixo meu coração

"Só deixo meu coração
Na mão de quem pode
Fazer da minha alma
Suporte pr’uma vida insinuante

Insinuante
Anti-tudo que não possa ser
Bossa-nova hardcore
Bossa-nova nota dez

Quero dizer
Eu pra tudo nesse mundo
Então
Só vou deixar meu coração
A alma do meu corpo
Na mão de quem pode

Na mão de quem pode e absorve
Todo céu
Qualquer inferno

Inspiração
De mutação
Da vagabunda intenção
De se jogar na dança absoluta
Da matança do que é tédio

Conformismo
Aceitação
Do fico aqui
Vou te levando
Nessa dança
Submundo pode tudo do amor (pode tudo do amor)

Porque não quero teu ciúme que é o cúmulo
Ciúme é acúmulo de dúvida, incerteza
De si mesmo
Projetado
Assim jogado
Como lama anti-erótica
Na cara do desejo mais
Intenso de ficar com a pessoa
E eu não à toa
Eu sou muito boa

Eu sou muito boa pra vida
Eu sou a vida oferecida como dança
E não quero te dar gelo
Jealous guy

Vê se aprende
Se desprende
Vem pra mim que sou esfinge do amor
Te sussurrando
Decifra-me (decifra-me)

Eu pra tudo nesse mundo

Absorvo todo céu
Qualquer inferno
Vê se aprende
Se desprende

Só deixo minha alma

Só deixo meu coração
Na mão de quem ama solto

Eu vou dizendo
Que só deixo minha alma
Só deixo meu coracão
Na mão de quem pode
Fazer dele erótico suporte
Pra tudo que é ótimo fator vital"
http://www.youtube.com/watch?v=ftcqvwECqhc

quinta-feira, 23 de julho de 2009

.

Se te vejo onírico
Sem te ver
Deveria ouvir-te ao prazer
E cheirar
Como se fosse te beber
em cálice de cale-se
para nunca mais a ilusão
dos sentidos a ti levar-me

Porém, sempre tem

Enquanto projeto de matéria
Quero morrer de ti
E comer em pedaços
Os estardalhaços
Que mata em mim
Mentira real que me usa
E me reclusa
Em clausura de amor
Que inexplicavelmente amo

Enclausurada
perguntas congênitas
compactuam
Por que não sinto?
Por que não está aqui?
Por que tem que ser sempre
Por que?
Apenas porque
não pode ser.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Nova boemia de antes.

Eu estava enjoado das velhas cortinas vermelhas, do vaso preto, das poesias parnasianas no canto do quarto, do relógio marcando hora de dormir e de trabalhar, de te pedir - querida me passe o sal -, e você me entregar o pote de açúcar com um sorriso um tanto maroto. Cheguei em casa. Elogiei seu vestido branco com barra até os pés e gola cacharrel, seu cabelo preso com palitinho japonês e perguntei da sobremesa. É claro, tudo "de lei."
Naquele dia, te vi adormecer novamente, lendo seu interminável livro favorito de todos os dias - O Segredo da Verdadeira Beleza Feminina - E eu, com meu inseparável parceiro noturno, Jornal do dia, sendo meu tempo escasso demais para lê-lo antes que anoitecesse. Porém, dessa vez o rodapé da página de anúncios, a coluna de relacionamentos, cuja qual eu nunca lia, me chamou uma súbita atenção. Dizia em palavras vulgares e instigantes: Se você gosta de caminhar à meia noite, tomar banho no mar leste totalmente despido, não é partidário de vegetarianismos, se gosta de cantar na chuva, não lê Olavo Bilac, gosta de bons etílicos, e sente falta de sua antiga pica em tom avermelhado, procure-me, e fuja.
Quanto absurdo! Na minha época não existia essas patifarias de baixo calão no jornal. Mas espere, qual é minha época ? Eu ainda estou vivo. Mandei a resposta no endereço do jornal.
Sim, eu gosto de tomar banho no mar totalmente despido, caminhar à meia noite cantando na chuva, prefiro os simbolistas, adoro etílicos e carne vermelha, isto, sem mencionar o último requisito de seu anúncio. Encontre-me em frente ao bar Bukowski, às onze horas da noite, e fugiremos. (casaco de lã, xadrex.)
Foi o que insanamente fiz. Isto me proporcionou mais adrenalina do que o pulo de bang-jump em minha adolescência. Depois de 25 anos ouvindo marchinhas fim de carreira, estava a aventurar-me novamente.
Estava lá no horário marcado, um tanto aflito e ansioso. Percebi uma mulher rondando o local, vestido vermelho, decote estravagante, cabelos ao vento, cacheados, batom destacado e olhar de águia. Mas eu conhecia aquelas curvas, eu já havia visto aquele sorriso maroto, e prendido aqueles cabelos. Sim, era minha querida garota salgada, minha esposa.
O que você faz aqui? - Então vi o anúncio na mão dela; ela mirou meu casaco.
Alguns minutos de silêncio, vieram as exclamações, os copos de chopp, as confissões, os perdões, e palavras perdidas ressurgiram, então, fugimos posteriormente.

Às vezes o acaso se encarrega de tudo.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Num certo sei lá.


Desespero
espero no tempo
conto migalhas
migalhas lembradas
palavras sem letras

Des espero
o tempo passar
e passo tudo
esperando e des esperando
passar o que

Passa comigo
lado a lado
fardo à fardo
linha entre linhas

lembranças varridas
em noite taciturna
desmembramento febril
do que jamais
em plano se viu.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Não queira


mudar outra pessoa
...mude de pessoa.

domingo, 21 de junho de 2009

Pena de morte (:

http://www.malvados.com.br/
viciei.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Vômito.

Sempre odiei discursinhos de lições de vida por aí. "Óh, tudo é hipocrisia, todo mundo é hipócrita." E logo eu... logo aqui estou eu.
No dia que a gente aprende a se auto-castrar, é uma bosta.
18 anos! Idade tão esperada. Carta de motorista! Documento tão esperado. Namorado, tão esperado. Não pode ter quando ainda é importante pra você.
Quando eu estava na 1ª série queria chegar logo à 4ª para empurrar os baixinhos da 1ª na fila da cantina, baixinhos estes que neste momento da história, eu estava inclusa. Mas cadê a 4ª série ? Terminei o 3º colegial ano passado e ainda não cheguei nela.
As coisas que precisa falar, não são mais para a amiga, para o namorado, ou para o professor fodão, mas os conselhos que precisa ouvir vem da sua avó que escreve geladeira com J.
E você dizia "acho que isto não é pra mim" com a maior superioridade individual do mundo, hoje se vê implorando para conseguir entrar e sentir uma faísca do que é este mundo que você desprezou, aquela idade que não viu passar, a carta de amor que escreveu para a lata de lixo, ou a outra que queimou porque foi machucada.
Calcule o que diabos você quer olhar daqui 18 anos e lamentar. Aquela executiva poderosa será motivo de escárnio? Aquela artista louca não passará de uma desprovida de sucesso prático e lógico? Ou aquele matemático mecanizado não passará um desprovido de inteligência sentimental?
Calcule também, o tamanho das inutilidades. Aquelas frases feitas que você repugnava e as pessoas diziam, sem nem saber o que estavam dizendo, se tornam verdades científicas. Frase de orkut mesmo. Até algumas de banheiro, sintam-se à vontade na lista, podem ser úteis.
A fé que você preservava tanto não passava de delírio psicológico. Os amigos que seriam para sempre já morreram e você nem foi ao velório. Os namorados vão e vem, e o de agora, é o que vai ser para sempre, e daqui uns 18 anos, o para sempre pode ser o mais conveniente.
E você diz "Ah, já passei dessa fase. Ou não?" Palavras que se transfiguram em uma bomba relógio pendurada em seu pescoço e a inferioridade bate a porta com um buquê de cactos, e com um rádio ligado em tom de publicidade, te lembrando que no final você não pode ser tudo, nem saber de tudo.
E eles? Te cobraram tanto, te chutaram tanto, te bajularam tanto, te pressionaram tanto. Todos na sarjeta como você, olhando as estrelas que nem sabem se realmente estão lá, afinal, eles estudaram, sabem que a luz viaja à 1 079 252 848,8 quilômetros por hora. E de que me vale agora? E de que eles me valeram?
Ah, mediocridade, só eu sei o quanto eu sinto saudade, do que eu nunca consegui ser.
Será que eu vou dar risada de mim como eu dou risada dos meus 8 anos de idade ?
Espero no mínimo que eu não tenha mofado numa cama até lá.
No fim das contas, o hipócrita é quem usa essa palavra demais.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Telomerase ideológica


Jovem! O que te faz tão maduro nesse primeiro passo? Se acha um beatnik fora do tempo? Tantas coisas passadas, sonhos desmantelados, paixões frustradas, gostos antigos. Mas, quantas coisas a se passar, quantos sonhos a serem idealizados, quantas paixões a serem apaixonadas, quantas coisas a saber... coisas que ainda precisa viver. Como todos, esquece-te do que não viveu.

A juventude é tão passageira quanto aquela banda na propaganda de refrigerantes. E a velhice tão relativa quanto os buracos negros na parede do seu quarto.

Hoje, só me cabe devanear
que já nascemos nos achando uns velhos a mais
e morremos nos achando novos demais.

Tudo na lei de seu tempo: tudo sem tempo.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Psico-retrato-dada


escrever
transcrever

da alma surpreender
e render às pupilas nuas meus vestígios

cobertos de lama e do rum
que eu não bebi aquela noite

pirando devagar
girando de pirando vagar

aludi às veias saltadas
expressão possessa

pouco plausível

que em meio à neve
aqueceu-me o frio

matei judeus
saqueei roubados

enterrei passados
tudo nas costas ou nas coxas

pois quem de ponta-cabeça não é
cabeça à ponta fica

ao ensurdecer de arte no abismo
e abismar-se do vazio

onírico

leva daqui essa bota
chutes descalços

pois trazes aqui essa velha bossa
que me abrange o vácuo

das erupções con-fusos estranhos
horários fora do relógio

do meu tempo minha posse
minha forca meus cadáveres
minhas pétalas minhas cinzas

pungentes

olhares tatuados
cheiros ouvidos desejados

na boca ! na boca !

metódica psicose
uma pitada de pedra

no cáli-ce vazio de silêncio
de quem chega e vai
de que não sei expressar
que não estou

do que sou feita

de que sou tudo

do nada

e da loucura desfeita.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

sábado, 9 de maio de 2009

Última carta.


Dona Sônia, que agora já era "dona" (como senhora), à caminho do hospital, lia com dificuldade a carta que esperou ler por toda sua vida.

Primeiramente, eu gostaria de pedir desculpas por estar entregando essa carta assim, tão covardemente. O fato é que eu não conseguiria olhar em seus olhos e permitir que palavras ecoassem ao mesmo tempo. Pelo menos, não essas palavras, e isso não se faz surpresa, esta continua sendo minha marca registrada afinal.
Hoje sonhei contigo. Tenho escutado muito as músicas que você me mandava, lido suas antigas cartas, algumas que não tive coragem de queimar. E agora, elas me queimam por dentro. Em contraposto, tem feito muito frio, chovido demais, tempestades dantescas, e ainda sim, eu estou cheio de queimaduras de quinto grau.
Durante todos esses anos eu tentei, juro que tentei. E achei que havia conseguido. Pensei realmente ser liberdade. Me gabava em frente ao espelho por pensar que minha luta incansável havia chegado ao fim. Eu definitivamente havia te esquecido.
Mas ontem, por algum motivo, desconhecido e extremamente desesperado, como se fosse um pedido de vida, sua lembrança me fez ver que apesar de transparentes, ainda perduravam as grades da minha antiga prisão, que me prendia a você.
Eu jamais lhe pediria perdão à essa altura, e muito menos, diria que aquelas palavras escritas no espelho do banheiro aquela noite não eram minhas. Só quero dizer antes que seja tarde, que continuo sob mesma condição, porém agora, não distraio mais a verdade, e cansei de enganar o coração. Em relação àquilo que saí em busca naquela noite, não posso dizer que encontrei, mas também, não tem a menor importância. O que posso dizer certamente, é que te perdi.
Perdi para mim mesmo. Perdi para a minha insegurança em me declarar. Para meus insanos e incontroláveis desejos, os quais eu não queria te mostrar . Para minhas utópicas manias de revolução. Devo admitir, desisti delas. Agora que estou velho, posso compreender tudo.
Mas não queria morrer sem que você soubesse...
aquelas palavras em batom vermelho, não passavam de medo. Medo de você querer me seguir, de você realmente cumprir o pacto de amizade, enquanto eu não sabia se conseguiria o mesmo. Medo de te fazer cair no abismo que eu me atirava. Sim, você conquistou um amigo covarde, que só enxergava a porta de saída da sua vida, para te manter protegida de alguns desejos vergonhosos, que de amizade, não tinham nada.
Ao fim, como você sempre dizia, e eu escutava mas não ouvia, as máscaras caem, a cicatriz se abre, os dedos ficam de fato. Confesso agora, que ainda sinto um certo receio em te imaginar lendo isto, ainda mais, depois de tantos anos, mas me desculpe, esse segredo é o que me prende em jaulas de mármore, que só irão me libertar no dia em que você souber. E por tudo, hoje digo de todo o coração: Eu sempre te amei mais que como um amigo, eu nunca deixei de te querer, nem um dia se quer, nem uma noite se quer, em nem um drink se quer, em nem um beijo se quer, em nem um poema se quer, em nenhum sonho se quer.

Se fosse um dia antes, ela pegaria seu casaco, sairía de casa, e realizaria o que esperou a vida toda.
Mas hoje, ela não poderia fazer nada... não poderia responder, nunca mais.